CANTO DE AMOR E LAMA I
Choveu
e há lama em Santo Amaro
nas ruas
nas casas
vós contornais
eu não
a mim a lama não suja
em mim há lama não suja
eu sou a lama das chuvas
que caem em Santo Amaro
Vosso scoth
pode me sujar por dentro
cachaça não
vosso perfume
pode me sujar por fora
suor nunca
porque sou suor
a cachaça e a lama
das chuvas caem
em Santo Amaro da Salinas
Segue um dos últimos registros do poeta Erickson Luna, em um dos seus redutos favoritos, o Mercado da Boa Vista. A foto foi feita por Adauto Júnior.

Conheci Erkcson no final dos anos 70, quando ele, com uma de suas ex esposas, abriram um bar em Rio Doce. Na epoca me asustei com aquela figura que tinha pensamentos e ideias logicas, mas auto- destrutivas, dentro da minha otica de mundo adolescente.
Com a convivencia fui aprendendo que os artistas sao pessoas especiais que vivem num mundo construidos por eles e para eles, nós, os pobres mortais, nao conseguimos acompanha-los. Nossa limitacoes esteticas e sociais nao permite-nos entender aquele mundo que desconsroi nossas crencas.
Salve Erickson Luna, parceiro de muitas conversas.
À
LUNA
” E o vento levou de mim/ a ansiedade quase incontida/ deixando a suave paz/ que sempre encontro em ti .”
M.Cortez
Conheci Erickson nas proximidades da unicap, bebemos muito, filosofamos a noite inteira, e fomos para sua casa. Conheci sua mãe, seu filho. Ele me chamava de meu paralelo. aqui em São Paulo sempre falo de seus poemas, da figura que me ensinou a elegância marginal. Não fico triste pela sua morte, como ele a fez ser, sua eterna vida.
Quando fui apresentado a Erickson vos disseram que eu era um “talento”.
Ele me pediu pra recitar algo meu. Recitei.
Fui aplaudido e aconselhado.
-boa, boa. mas numca se esqueça que o mais inportante é o “não ta lento”.
Quando o perguntei o que ele tinha feito da vida, me respondeu:
Tenho escrito poesia, compondo músicas e bebido cachaça… e tem me feito felíz.