Feliz 2014

Se 2013 nos trouxe algumas perdas como Dominguinhos, Arlindo e João Silva, nos resta ser otimista sobre o futuro ano. Que nossa cultura se fortaleça cada vez mais. Que os artistas produzam material de qualidade. Que novos nomes possam surgir com uma proposta clara e com conteúdo. Que se pague cada vez mais justo aqueles que lutam para manter raízes.
Que os poetas escrevam cada vez mais e melhor.

Enfim, feliz 2014 para todos nos e estejam sempre por aqui. Aguardem novidades.

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1 comentário

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Uma resposta para “Feliz 2014

  1. Cordel do poeta Eloi Firmino de Melo- Pb

    BARAÚNA x CASCAVEL

    Baraúna:
    Eu sou filho desta terra,
    Do solo paraibano;
    Viajado pelo mundo
    Na genética dos hispanos;
    Na França meus ascendentes
    Foram guerreiros valentes,
    Valorosos durindanos.

    Sempre aqui na minha terra,
    Por dever de ocasião,
    Nunca deixei machucada
    A honra do cidadão.
    E assim foi por todo o Estado,
    Sou Baraúna, o afamado
    Justiceiro do sertão.

    Tenho um caso conhecido
    Na cidade de Vitória,
    De lá voltei decidido
    A esquecer aquela história;
    Que a fama de ser valente
    Carregava certamente
    Algum peso na memória.

    Não que estivesse com medo
    Pois homem da minha terra
    É feito cabrito bom,
    Morre calado e não berra;
    Mas quando ele dá um grito,
    O som provoca um atrito
    Que abala a raiz da serra.

    É que por causa da fama
    Toda bagunça que havia
    Nas festas da redondeza,
    O povo logo corria
    Depressa pra me chamar
    Para que eu fosse acabar
    Com aquela patifaria.

    No coco de João Felipe,
    No xangô da Manuela,
    No forró de Pedro Augusto,
    Na boate da Cancela,
    Lá ia eu feito um besta
    Manter a ordem na festa,
    Desmanchar qualquer querela.

    Já nem podia ir à rua
    Pra comprar algum remédio;
    Por causa da mulherada
    Com toda forma de assédio;
    E entre abraços e beijos
    Eu aproveitava o ensejo
    Pra não ter razão de tédio.

    Mas precisava de paz
    Porque só faz bem à gente;
    Esse negócio de briga
    É coisa inconveniente;
    E no véu da madrugada
    Eu botei o pé na estrada
    Por me parecer urgente.

    Narrador:
    Foi habitar no sertão,
    Na cidade Cajazeiras,
    De manhã subia o morro,
    Via o Cristo na ladeira;
    No domingo ia de carro,
    Passava Antenor Navarro,
    Chegava ao Brejo das Freiras.

    Tomava banho nas termas
    Desse oásis sertanejo;
    Depois bebia cerveja
    Com tira-gosto de queijo;
    Ou apreciava um vinho
    No restaurante vizinho
    Do paraíso do brejo.

    Quando voltava à noitinha
    Dormia que só um anjo;
    A mulata sertaneja
    Cuidava bem do marmanjo;
    A cama limpa e forrada
    E a casa bem asseada
    Com flores postas no arranjo.

    Quando era dia de feira,
    Baraúna ia comprar
    Umas coisinhas pra casa,
    Se estivesse a precisar.
    Mas certo dia um sujeito
    Chegou batendo no peito
    Insultando-o pra brigar.

    Usava calça de mescla
    E na cabeça um boné;
    Um punhal do lado esquerdo,
    E no direito a quicé.
    Um bisaco a tiracolo,
    E andava pisando o solo
    Com a pega-bode no pé.

    Chegou em dona Luzia
    Toma uma lapada de cana;
    Na barraca de Gonçalves
    Pisoteou as bananas;
    E depois que comeu queijo
    Foi abraçar e dar beijos
    Na filha de dona Ana.

    Daí entrou na igreja
    Que parecia o Tição;
    Bebeu o vinho da missa
    E falou pro sacristão:
    Eu jamais temo castigo
    Porque carrego comigo
    A melhor religião.

    Apontou para o punhal
    E pra sua cartucheira;
    E foi cochichar no ouvido
    Da beata rezadeira;
    Depois saiu atrevido
    Alevantando o vestido
    Das moças namoradeiras.

    Ia haver um casamento
    Naquelas horas do dia;
    Era uma moça bonita
    Dessa mesma freguesia;
    Chamou-a de vagabunda
    E deu tapinhas na bunda
    Como se fosse uma vadia.

    E saiu da igreja rindo
    De modo desaforado;
    Entrou na feira outra vez
    Com todo mundo calado;
    Baraúna só olhando
    Que agora ele vinha andando
    Na direção do seu lado.

    Derrubou uma barraca,
    O dono dela fugiu;
    Baraúna se afastou
    Assim que a tenda caiu;
    O sujeito debochado
    Olhou pra ele abusado,
    Piscou um olho e sorriu.

    Baraúna:
    No local onde eu estava
    Pisou meu pé por maldade;
    Respirei fundo em silêncio
    Com muita calma e humildade;
    Só pra manter a postura
    Audaz, briosa e segura,
    Minha melhor qualidade.

    Perguntei qual é a graça
    Que vê nessa palhaçada?
    Você com toda essa astúcia
    Pode deixar machucada
    Moça, mulher ou criança;
    Acabe com essa lambança,
    Deixe de inventar zoada.

    Cascavel:
    O meu nome é Cascavel,
    Filho de Zefa Parteira;
    Nasci no Sítio Salgado
    Lá na Serra do Teixeira;
    Conheço bem o sertão,
    Fui cabra de Lampião;
    Andei a caatinga inteira.

    Baraúna:
    Bem melhor que você fosse
    Um homem decente e sério.
    Que a vida é coisa bonita
    Quando a gente tem critério.
    Viver assim desse jeito
    É o caminho mais perfeito
    Para entrar no cemitério.

    E depois nem imagina
    A encrenca em que se meteu;
    Talvez pela ignorância
    De não saber quem sou eu;
    Pois quando digo meu nome
    O cabra safado some
    Pensando que já morreu.

    Cascavel:
    Está querendo insultar-me
    Com essa conversa mole?
    Soque as palavras que disse
    Nessas bochechas de fole;
    Pois não vejo a ocasião
    De lhe dar uma lição,
    Até que seu couro esfole.

    Baraúna:
    É melhor ficar quieto
    Voltar pra sua morada;
    Pois quem mexe com abelha
    Corre o risco da picada.
    E em vez de beber o mel
    Vai virar uma cascavel
    Com a cabeça esmagada.

    Narrador:
    Aí o tempo fechou,
    Quando ele falou assim;
    Com três quentes, um fervendo,
    Cascavel ataca, enfim,
    Mas leva um golpe na venta
    Que urrou feito a jumenta
    No roçado de capim.

    Mas quando aprumou o corpo
    Limpou o sangue com a mão;
    Pegou o seu bacamarte
    E foi logo armando o cão;
    Mas antes do seu disparo
    Um bom chute custou caro
    Na penca frágil de Adão.

    Quando sentiu a pancada
    Botou a mão no lugar;
    A dor foi tanta que ele
    Lutou pra não desmaiar;
    Recuperou-se do tombo
    E aí aprumou o lombo
    Para outra vez atacar.

    Num gesto de valentia
    Puxa o punhal da bainha
    E vem pra cima com raiva
    Com toda força que tinha;
    Foi quando levou um soco
    Que fez ele catar coco
    Sobre as sacas de farinha.

    O povo todo assistia
    Àquela luta ferrenha;
    De tempo em tempo gritava:
    Baraúna, baixe a lenha!
    Mas o cabra era uma fera;
    Parecia uma pantera
    Da loca escura das brenhas.

    As barracas de mangalhos,
    Os balaios de verdura
    Ficam todos destroçados
    No rojão dessa bravura;
    E o casamento que havia
    Teve que mudar o dia
    Para ocasião futura.

    Rolaram pelas calçadas,
    E pela a escada da igreja,
    No botequim tropeçou
    Numa grade de cerveja;
    O dono João Severino
    Era o cabra mais mofino
    Da região sertaneja.

    Com medo de uma lapada
    Pulou ligeiro o balcão;
    Pra se esconder com certeza
    Dessa grande confusão.
    Por ser verdade eu não nego,
    Que a calça encalhou num prego,
    Ficou caída no chão.

    O dia se fez pequeno
    Com aquela luta de cão;
    As armas que ele trouxera
    Já não tinham mais ação.
    Só restava com certeza
    Fazer a sua defesa
    Com o que lhe vinha às mãos.

    No final da confusão
    Partiu com tudo que tinha
    Para dar uma cabeçada;
    Mas do jeito que ele vinha,
    Tão ligeiro quanto um raio,
    Tropeçou contra um balaio
    E um garajau de galinhas.

    Baraúna:
    Foi pena pra todo lado
    Das aves cocorocós;
    Enrolou-se desastrado
    Nas embiras e cipós;
    E enquanto fazia esforço
    Eu pisei bem no pescoço
    Que o cabra perdeu a voz.

    E eu disse chegou a hora
    Em que a porca torce o rabo;
    Quem contratar um duelo
    Não vai receber afago;
    Sou Baraúna, formado,
    Com diploma de mestrado
    Em domar sujeito brabo.

    Não quero contar vantagem,
    Se quiser nem acredite;
    Mas briguinha como essa
    É bom que você evite;
    Porque quando estou disposto
    Isso aqui é tira-gosto
    Pra melhorar o apetite.

    Ele quis se levantar,
    Eu disse: fique deitado!
    Agora neste momento
    Você vai ser algemado.
    Porque chegou a polícia
    Pra completar as carícias
    Por ordem do delegado.

    Depois que tudo acalmou
    O cabra me olhou de um jeito
    De quem trazia à lembrança
    Algum passado refeito;
    Ali só me vinha à mente
    Pôr os elos da corrente
    Nos punhos do tal sujeito.

    Cascavel:
    Agora tenho a impressão
    De que a gente se conhece;
    Da cidade de Vitória,
    Quem apanha não esquece.
    Foi tanta pancada e soco
    Que na hora do sufoco
    A terra quase estremece.

    Baraúna:
    É verdade, eu me recordo,
    Ali venci dezesseis;
    Mas houve lá um safado
    Que soltou todos vocês.
    Iam morrer na cadeia,
    Com fome e levando peia
    Porém nem passaram um mês.

    Cascavel:
    É que você não sabia
    Que o Coronel Chico Amaro
    Era o nosso protetor,
    Homem que nos dava amparo;
    E pela vontade sua
    Antes que nascesse a lua
    Os agentes nos soltaram.

    Eu esperava até hoje
    De um dia levar vantagem;
    E voltar pra minha terra
    Sem ter perdido a viagem;
    Mas vou deixar pra depois
    Outra luta entre nós dois
    Com mais trunfo na bagagem.

    Baraúna:
    A polícia quis saber
    Quem eu era de verdade;
    Por causa da confusão
    Não me sentia à vontade;
    Como eu estava cansado
    Prometi ao delegado
    Que falaria mais tarde.

    A feira tinha acabado
    Por causa da confusão;
    Fui ali muito aplaudido
    Por imensa multidão;
    E o filhote de cangaço
    Tinha as algemas nos braços
    Ao entrar no camburão.

    Antes que o dia nascesse
    Eu saí de Cajazeiras;
    Mas soube da procissão
    Que fez subir a ladeira;
    Isso tudo, pelo visto,
    Foi pra agradecer ao Cristo
    Aquilo que fiz na feira.

    Saí de lá e hoje moro
    Num lugar muito pacato;
    Mesmo assim tenho saudade
    Da vida mansa do mato;
    Mas aqui na freguesia
    Ninguém sequer desconfia
    Do que sou capaz de fato.

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